DENISE MENEZES
BREJO GRANDE (SE) E PIRANHAS (AL) – A canoa de tolda Luzitânia, um símbolo da navegação do baixo São Francisco, está ancorada em Brejo Grande, à espera de recursos para a recuperação de um de seus mastros, quebrado desde janeiro. Em 2010, a canoa foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan), depois de ser inteiramente restaurada pela Sociedade Canoa de Toda, atual proprietária, em um processo que durou sete anos e envolveu a aplicação de R$ 80 mil.
Em outubro, a recuperação da canoa rendeu à instituição o primeiro lugar na categoria Preservação de Bens Móveis do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, editado anualmente pelo IPHAN. Pela premiação, a sociedade recebeu R$ 20 mil, mas não pretende aplicar recursos próprios no conserto da barca e pleiteia que o investimento, orçado em R$ 3 mil, seja feito pelo governo federal, via Iphan.
“Se a canoa é um bem protegido pelo governo, nada mais natural que ele arque com os custos. Temos know-how para fazer a recuperação do mastro, assim que o Iphan liberar o recurso, que já foi prometido”, diz o presidente da Sociedade Canoa de Tolda, Carlos Eduardo Ribeiro Junior. Em 2001, a Expedição Halfeld conheceu a Luzitânia. À época, a canoa já tinha sido adquirida pela entidade e aguardava a revitalização, ancorada no cais do povoado de Mato da Onça, na cidade alagoana de Pão de Açúcar.
A Luzitânia é uma das três canoas de tolda que restam no Brasil. As outras estão em Piranhas (AL) e no Museu Nacional do Mar, em São Francisco do Sul (SC). A canoa de tolda Piranhas, que hoje compõe o bucólico cenário da orla da cidade de mesmo nome, foi comprada e reformada pela prefeitura. De acordo com o secretário de Cultura e Turismo, José Cláudio Pereira, a embarcação é originária de Propriá (SE), se chamava Daniela e até a sua aquisição, em 2003, continuava a navegar, mas em estado precário.
Ainda em 2003, com investimentos de R$ 50 mil, a canoa foi recuperada, com a ajuda do mestre Natalino, um dos poucos mestres carpinteiros que restam na região. Em 2007, passou por nova reforma, nas estruturas de madeira, quando foram investidos mais R$ 15 mil. Hoje, a embarcação fica a maior parte do tempo ancorada e está aberta à visitação pública. Eventualmente, a Piranhas leva grupos de estudantes para passeios pelo Velho Chico, mas dentro dos limites da cidade. “Adquirimos e reformamos a embarcação para resgatar parte da memória da navegação em nossa região e pelo valor simbólico e emocional que as canoas de tolda têm para as comunidades, sobretudo aquelas mais tradicionais”, diz o secretário.
As canoas de tolda são memória viva dos tempos de fartura do comércio que marcou a história da navegação entre os municípios do São Francisco. Pelas embarcações, eram transportadas mercadorias e passageiros de todos os tipos – desde viajantes e comerciantes até cangaceiros – que levavam as notícias de uma cidade à outra. Com um par de velas, as barcas têm 16 metros de casco, são perfeitamente adaptadas para descer o rio, a favor do vento, com o pano aberto; e compostas de leme, tábua bolina, moitão e a tolda, que serve de abrigo para a mercadoria transportada e para os canoeiros.
A Halfeld 2011 é apresentada pela Cemig e pelo Governo de Minas e tem o patrocínio da Assembléia Legislativa.